Projeto de residência artística com oficinas e criação de vídeos sobre Rio de Contas

Premiado no edital Prêmio Interações Estéticas, Residências artísticas em Pontos de Cultura 2010 da Funarte, o projeto Rio de Contas Imaginária conta com oficinas teóricas e práticas de vídeo além da realização de trabalhos artísticos entre a proponente Gláucia Soares e o grupo de jovens do programa Agente Escola Viva (Colégio Carlos Souto) do Ponto de Cultura Ciranda de Bonecos em Rio de Contas.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

3º encontro: Cineclube: Um truque de luz (Die Gebrüder Skladanowsky), Wim Wenders, 1995, 80 min., Alemanha. Exibição e discussão entorno do longa-metragem: “Um truque de luz” de Win Wenders sobre as primeiras experiências técnicas de filmagem e projeção de cinema na Alemanha.



"Um truque de luz" (Die Gebrüder Skladanowsky, 1996), filme do aclamado diretor alemão Wim Wenders, nos leva a uma viagem incrível para a Alemanha no final do século XIX.
Guiados por Gertrud, uma garotinha simpática que testemunhou o nascimento do cinema e filha de um dos irmãos Skladanowsky,  passamos por várias etapas das "máquinas de fazer imagem" até chegar ao bioscópio, uma versão mais adiantada do projetor de filmes. 
Wenders consegue atingir com emoção o espectador, que acompanha uma mistura de documentário e ficção, resgatando de forma carinhosa e apaixonada as muitas experiências com as imagens de Max e Emil Skladanowsky, provando que a forma, assim como o conteúdo, é capaz de transmitir mensagens e ideias para quem o assiste. 
É interessante notar como o cinema era visto como uma "atração", assim como o circo ou um parque de diversões; contando com um observador boquiaberto, surpreso, cercado de estímulos e atenção. 
Outro detalhe importante são as máquinas de fazer imagem que aparecem no filme e que deram origem a exposição "Sai da caixa", como a lanterna mágica, o teatro de sombras, o flip book e o zootrópio.
A escolha desse filme para reiniciar as atividades do Fazcine Clube no segundo semestre  foi proposital, uma vez que ele nos leva a uma reflexão do "fazer cinema" com seus personagens carismáticos, que se dedicaram de corpo e alma àquela arte até então desconhecida.

http://fazcine.blogspot.com/2010/08/um-truque-de-luz.html

quinta-feira, 9 de junho de 2011

2º encontro -Oficina: os primórdios do cinema. Os primeiros experimentos e invenções científicas que vão culminar nas primeiras exibições públicas de cinema. Lumiére, Edison, Porter, ... Dos espetáculos de vaudeville aos nickelodeons.


Imagem produzida por um Calotype:







          Daguerrotype: 
                                        Película cinematográfica de 35mm:                                                       


Hoje conversamos um pouco sobre como ocorre o processo físico-químico de impressão da imagem na película cinematográfica e logo depois fomos até o final do século XIX para relembrar um pouco do contexto científico e industrial da época que propiciaram as primeiras exibições públicas de cinema. 
A produção dos primórdios do cinema era ainda bastante marcada por uma certa despreocupação em contar histórias. Eram produzidos filmetes curtos que intercalavam as apresentações nos espetáculos de variedades. Mais tarde, com o desejo de selecionar mais o público,   aparecem os nickelodeons (salas de exibição exclusivas de filmes).


No final do século XIX, época marcada pela exaltação dos progressos técnicos, sucessivos aparelhos de captação e reprodução de imagens em movimento foram apresentados, ao lado de outras invenções elétricas e mecânicas, nas exposições universais, feiras industriais e salões de novidades. Estas máquinas eram lançadas no mercado como uma atração em si mesmas: não eram anunciados os títulos dos programas exibidos mas o próprio quinetoscópio ou cinematógrafo. A curiosidade do público pela novidade técnica durava um breve período. A partir daí, a afirmação desses dispositivos no campo do entretenimento dependia de uma permanente renovação dos programas de filmes.
  O cinema desses primeiros anos era profundamente dependente de outras formas culturais, como o teatro popular, a imprensa, as histórias em quadrinhos e as palestras com lanterna mágica. Daí se originava a fonte de inspiração para os conteúdos , mas também para o próprio modo de representação, que precisava ser compatível com filmes constituídos de um único plano com duração inferior a um minuto. Atos de malabarismo, exibições de alterofilistas, danças e lutas eram ações mecânicas que não chegavam a demandar uma interpretação. Já no caso das cenas cômicas ou dramáticas, era necessário que se limitassem a uma atuação curta em forma de pantomima, em que o exagero dos gestos compensava a falta dos meios narrativos.
(Silvio Da-Rin, Espelho Partido, Págs 29 e 30)

Era o “cinema de atrações” segundo Tom Gunning que não chega a narrar mas mostra situações excitantes. Enquadramentos frontais onde os atores se referem diretamente ao público. Atrações ou atualidades onde se encontram tb os registros de viagem, reconstituições de guerra, ou de crimes sensacionais além de lutas de boxe e registros de acidentes.
Eram muitas vezes vendidos separadamente ao exibidor ou ainda, a ele cabia muitas vezes o papel de “montador” dos materiais para a exibição pública.
            
LINKS

First Motion Picture Horse 1878  (http://www.youtube.com/watch?v=UrRUDS1xbNs)

Edison Kinetoscope films 1894-1986 (http://www.youtube.com/watch?v=mIkLok-BYIk)

Coney Island Water Chutes 1896-1903 (http://www.youtube.com/watch?v=A49sOUfk_oE )

L.Lumiere NewYork, Brodway at Union Square,1896 (http://www.youtube.com/watch?v=3y9PEIgTA7E)

terça-feira, 7 de junho de 2011

1° encontro – Apresentação do projeto, apresentação da artista residente e apresentação do grupo. Oficina: a idéia platônica do mito da caverna e sua semelhança com o espaço da sala de cinema.
























No nosso primeiro encontro conversamos sobre a proposta do projeto Rio de Contas Imaginária. A idéia é em primeiro lugar conhecermos a história do cinema clássico entendendo como se estabeleceu a forma do cinema hegemônico e a situação sala de cinema como a conhecemos hoje. Mais adiante pensaremos o cinema fora da sala de cinema a partir de experiências artísticas que levam as imagens em movimento para museus, ruas, espaços públicos e lugares não convencionais da cidade. Outra vertente do projeto é relativa ao tema dos trabalhos que realizaremos. A intenção é refletir sobre a cidade em que vivemos através das imagens.

REFERENCIAS: 



A ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco – Estou vendo.
Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco - É bem possível.
Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco - Sim, por Zeus!
Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco - Assim terá de ser.
Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco - Muito mais verdadeiras.
Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco - Com toda a certeza.
Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco - Necessariamente.
Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco - Por certo que sim.
Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.
(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)













ARLINDO MACHADO, A CAVERNA E A LANTERNINHA, (de "Pre-cinema e Post-cinema", Papirus Editoras, Campinas (São Paolo), 2008, 5a ed., pg. 28-34)












  
Etienne Jules Marey, LOCOMOTION, 1870


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- The Cave: An Adaptation of Plato's Allegory in Clay